Briga de amor, dói!
Como podemos entender que um casal que se ama pode chegar à violência conjugal?
Para pensar nesta questão, proponho refletir sobre a seguinte pergunta: Qual é o inverso do amor? Se você pensou que é o ódio, se enganou redondamente, pois o ódio e o amor são duas faces da mesma moeda. Nós só podemos odiar as pessoas que nos são significativas, pois amor e ódio são sentimentos que nutrimos por aqueles que mobilizam profundas e intensas emoções dentro de nós, assim sendo, provavelmente odiamos porque amamos demais, mesmo sem saber, e não nos sentimos correspondidos, ou nos sentimos dependentes, ou decepcionados ou frustrados, por este alguém, então o amor transforma-se em ódio.
O oposto do amor, por sua vez, nada mais é do que a indiferença.
É importante ter em mente que casais que se agridem violentamente, possuem elementos como o sadismo e o masoquismo como forte componente de suas personalidades e tais características imperam com vigor, muitas vezes, de forma camuflada nesta relação que acontece entre “tapas e beijos”.
Mas, ainda resta a pergunta: porque pessoas que se amam chegam ao ponto de se agredir de forma violenta?
Vamos por partes e pensar em primeiro lugar sobre o conceito de violência, que é um dano invasivo ao psiquismo e ao corpo, e surge quando a linha tênue do limite entre duas pessoas deixa de ser considerada. Daí percebemos que se houve invasão é porque falhou a construção de um espaço dentro do agressor que considera o outro como um ser existente e independente de seus desejos.
A violência entre o casal chega no momento em que o mito do amor romântico se desfaz. Neste mito o outro representa aquele que existe para trazer a felicidade e a satisfação plena, então, a pessoa agredida foi coisificada, não é mais um ser a parte, mas sim, um objeto cuja função é não decepcionar, nem em fantasias.
Nesta relação, o agressor torna-se prisioneiro de sua própria violência, porque busca na pessoa amada aquilo que ele próprio é, ou aquilo que idealiza, ou ainda, a pessoa amada representa os amores perdidos da infância: o pai que protege ou a mãe que nutri ou ainda, toda a gama destes elementos combinados. De tal modo, nesta rede de representações aparece deslocado o desejo de completude com o ser amado, onde as frustrações naturais da vida não cabem, e o parceiro tem por obrigação, compensar as decepções vividas no passado do agressor, que com tantas exigências tais desilusões só podem se repetir como num circulo sem fim.
A violência então surge no lugar daquilo que não pode ser dito nem pensado e se reapresenta como se fosse um destino inescapável. Agressores e agredidos apresentam um embotamento da capacidade de pensar a vida emocional, portanto distanciam-se de suas consciências as quais buscam diferentes caminhos para se defender do sofrimento, tal qual o analgésico, que alivia temporariamente a dor, contudo, a causa só poderá ser suprimida quando a violência entre o casal puder ser nomeada, e os conteúdos puderem ser elaborados e ressignificados. A partir disso, o casal poderá construir uma nova história. Porque briga de amor dói, e quem a vive, conhece o quanto dói.
Léa Michaan
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