O futebol entrelaça as pessoas no campo das emoções
Sempre achei que as coisas fossem muito mais aquilo que elas representam do que a sua concretude. Mas ao assistir a uma partida de futebol, dentro do estádio, meu “achismo” transformou-se em ciência.
Tudo começou quando solicitei aos meus filhos, um de treze e outro de quatorze anos, que me ensinassem a letra de uma famosa música entoada pelos torcedores do Corinthians, um dos mais populares times de futebol do Brasil e com torcedores reconhecidamente fieis e apaixonados pelo clube.
Meus filhos foram além e me mostraram, pela internet, a imagem de milhares de pessoas gritando juntas a plenos pulmões e fazendo o mesmo movimento de vai e vem com a mão fechada, como se estivessem, de fato, empurrando os jogadores para realizar o gol. Levantavam e sentavam no ritmo de um coração que vibra por seu time, e colaboravam uns com os outros numa incrível sintonia para erguer, sobre suas cabeças, a gigantesca bandeira que ganhava vida nas milhares de mãos que a levantavam.
Devo confessar que, ao ver aquele mundo de gente conectada mental e emocionalmente, através de um jogo que transformava milhares em um, senti um nó na garganta e pedi para que eles me levassem a um jogo, afinal, como psicóloga que estuda a mente e as emoções humanas, precisava ter essa experiência ao vivo e sentir na pele o calor destas emoções.
Logo que entrei no estádio adorei o clima de vida que pairava no ar. Era impossível não se contagiar da energia feita da garra, luta, perseverança, batalha, fé, esperança, desejo, entre outros interessantes aspectos.
O mais bonito de tudo é enxergar aquilo que um time pode representar aos seus torcedores: a sensação maravilhosa de pertencimento, de não solidão ou não solitário, a compensação das próprias perdas através das vitórias das partidas e a possibilidade de realizar o luto comunitário nas derrotas.
O time tornou-se o lugar para atualizar nossas competições e rivalidades. Talvez já não torçamos por nós mesmos há muito tempo, então compensamos isso torcendo pelo nosso time. Talvez, a vida não nos anime e encontramos aquela motivação perdida no nosso time do coração que, de alguma maneira misteriosa, confunde-se com nós mesmos e, assim, vivemos as suas glórias como sendo nossas e as derrotas como de alguém muito próximo, o qual amamos incondicionalmente. E dando este amor, também recebemos o tão almejado amor incondicional, que todos nós desejamos receber e, através da magia do futebol, isto se torna possível.
Foi bonito ouvir a conversa silenciosa entre torcedores e atletas cada vez que a bola ia de um lado para o outro. Todos chutavam juntos da maneira que podiam, através de assobios, palmas e aclamações. Quando havia o risco de o time adversário fazer gol, ouvia-se num só sussurro o frio que pairava nas milhares de barrigas dos torcedores, em sintonia com as dos atletas, num encontro tantas vezes raro de acontecer entre duas únicas pessoas.
Num determinado momento da partida surgiu um pênalti. Confesso que perdi o gol, pois estava hipnotizada olhando para as pessoas rezando com muito fervor, pedindo a Deus que o gol se realizasse. Neste momento, percebi que as pessoas rezavam por si próprias e procuravam se conectar com uma força maior, pedindo ajuda para realizar seus tão desejados gols nesta vida dura, mas que fica colorida quando o nosso time joga.
Por fim, aqueles torcedores estão entrelaçados ao time, assim como o time misturado a eles, e nem eles nem ninguém podem dizer ao certo onde termina o torcedor e começa o time, ou onde termina o time e começa o torcedor.
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