Psicóloga Responde

Dicas úteis para o dia-dia

Desenlaces Psicológicos da Cirurgia Bariátrica

Quando uma pessoa se submete a esta cirurgia é porque esta muito acima do peso e não consegue diminuir o ritmo nem a quantidade de comida que ingere.

Você deve estar se perguntado porque falei comida e não alimento?

Mesmo se você nem pensou nisso, saiba que há uma diferença entre alimento e comida e ela é gigantesca: Quem se alimenta vive uma relação com os elementos destinados a serem ingeridos de maneira completamente diferente de quem
simplesmente os come. Uma vez que tudo o que existe, se revela de formas singulares para cada pessoa, conforme o significado que lhe é atribuído. Assim sendo, quem come compulsivamente busca encontrar na comida uma satisfação que
não está lá, uma vez que, só pode ser encontrada na interpessoalidade, isto é, o que mais alimenta um ser humano nos quesitos emocionais é a relação rica que este pode estabelecer com os outros.

A voracidade nasce de uma comunicação interpessoal deficiente, quando “a coisa” ou os objetos são apresentados na infância pela mãe: mamadeira, chupeta, alimento, seio, banho; E na fase adulta por si mesmo: roupas, alimentos, carros ou joias são oferecidas não só como coisas, mas como função, seja de preenchimento, realização, acolhimento, afeto, sanador de feridas
narcísicas ou emocionais; Como cura das frustrações, dos anseios ou das angustias, então, nasce a compulsão por comida, compras, entre outros.

A compulsão trás um alivio imediato e momentaneo para as faltas,
mas não resolve, tal qual uma coceira que nos aflige e cada vez que coçamos aumentamos o rombo por ela produzido.

No pré-operatório, o obeso acredita que a cirurgia resolverá todos os seus problemas, uma vez que ele outorga extremo valor ao corpo e da relação deste com a vida e o mundo e por isso mesmo tornou-se obeso, numa vã tentativa de incorporar todas as suas carências pela boca e de experimentar a satisfação dentro do estomago.

Antes da cirurgia o ato de comer representava um prazer incondicional, a pessoa era dona de seu organismo, ela determinava o que, quando, como e onde comer. Agora ela foi mutilada em sua automação quanto ao ato de comer ou não. Tal qual alguém que mutila uma perna e agora não pode andar a vontade a seu bel prazer. Este membro ou órgão, não lhe pertence mais.
A comida não desce bem, enrosca, fica pesada, parada, a pessoa passa muito mal se não modera extremamente, e isto diminui de maneira drástica o prazer de comer. E mais do que isso, o sentimento de ser senhor e dono de si, de decidir
se irá comer até sentir-se saciado, ou se prefere não comer para manter a silhueta e a saúde. Depois desta cirurgia a pessoa sente que não manda mais nem em si mesma, não é rei nem de seu próprio organismo.  Algumas pessoas encaram isto como se fosse uma punição para expiar a culpa por terem comido de maneira exagerada e abusiva.

O que estas pessoas que tinham quase que um prazer exclusivo em comer podem fazer com si próprias após o ato cirúrgico que retalhou lhes o estomago?

Algumas ficam com a autoestima tão retalhada quanto o estomago, pois, é uma situação análoga a daquele que cortaram as mãos porque não podia parar de roubar, por exemplo. A cirurgia é a prova cabal de que a pessoa não tem o mínimo domínio sobre si. Como se fosse escrava de suas vontades.

Estamos falando de pessoas que pensam com o corpo. Podem ser muito inteligentes para negócios ou questões intelectuais, mas possuem pouco elemento mental para elaboração e por isso mantém contato pobre consigo e com os outros.
Faltam elementos de escuta e compreensão. A obesidade esconde a pobreza de representações mentais e a descarga pulsional acaba acontecendo no corpo. E, agora, o que se há de fazer?

Na própria pergunta consta a resposta: Encontrar outros prazeres e desenvolver a capacidade de pensar de outras formas, além do corpo.

É perigoso alguém que sempre pensou com o corpo, outrora, comendo, agora continuar a pensar com o corpo, mas em vez de se relacionar com a comida se relacionar com o sexo ou com o álcool, ou com as drogas, por exemplo. Nestes casos só foi deslocado o conteúdo e o local da compulsão.

A pessoa acostumada beliscar o dia inteiro a cada vez que esta com fome, frio, angustia, ansiosa, sentindo um vazio, alegria, tristeza, solidão, aflição, carência, amargura, ou seja lá o que, mas só buscava conforto para estas inquietações na comida, que trazia, de fato, algum alivio imediato, mas não resolvia, muito pelo ao contrário, só afastava mais a mais a pessoa de sua legítima necessidade, mascarando-a com um sabor gostoso na boca e trazendo satisfação de uma barriga, literalmente, cheia, agora terá que aprender a entrar em contato com o seu legítimo sentimento, terá que ser alfabetizada na leitura de si mesma e aprender esta língua estrangeira por meio da qual grita seus anseios. Única saída para adentrar em si e escutar o que seu amago lhe pede, e oferecer-se daquilo que de fato deseja ou necessita e não se empanturrar de um monte de comida, que na medida em que aumenta a barriga deixa o rombo emocional cada vez maior.

Quando quiser comer por gula, pergunte-se: Eu tenho fome de que?
Eu tenho sede de que? Provavelmente você não saberá a resposta, por que ainda é analfabeto na leitura de suas necessidades, mas procure um profissional que lhe ensine a decifrar o que há dentro de você.

E, como sempre, acreditamos que a solução de nossos problemas se encontram tão distantes , de nós, em outra pessoa, outro país ou outro continente, mas na realidade ela está num dos lugares mais difíceis de alcançarmos e requer a mais penosa das viagens, que é bem dentro da gente.

Léa Michaan,

28/05/2011

 

27 de Maio de 2011 Posted by | cirurgia bariatrica | 2 comentários