Psicóloga Responde

Dicas úteis para o dia-dia

Compulsão por compras

Esta entrevista concedo à mídia devido as dividas no cartão de crédito. Saiba como funciona a parte psicológica destas dívidas!!

 

– O que leva uma pessoa a gastar mais do que ganha? Ela tem o discernimento de que está fazendo isso?

 

O que leva a pessoa a gastar mais do que ganha é a crença na fantasia de que obter tal objeto fará com que ela se sinta melhor do que é, ou que os outros vejam nesta pessoa algo melhor. A pessoa fantasia que adquirir algum objeto trará tantos benefícios que o preço do item, independentemente da pessoa possuir ou não este dinheiro vale muito mais do que o valor empregado. Isto acontece em demasia nos dias atuais, pois há grande apelo ao consumo. Os objetos são fabricados para tornarem-se obsoletos em poucos meses, e as propagandas prometem exatamente aquilo que todos nós sonhamos em ter: sermos aceitos, admirados, poderosos, mais belos, mais potentes, mais sedutores, etc. Como se o objeto agregado nos tornasse mais valiosos. Há uma grande confusão entre ter e ser. Ter é quando o objeto é o centro, o principal e a pessoa o rodeia. Ser é quando a pessoa é o centro, o mais importante, e os objetos a rodeiam. Isto acontece porque as pessoas perderam o discernimento de que estão afundando em dividas porque ficam hipnotizadas pelo objeto, e as fantasias que o rodeiam. Esta fantasia ou delírio toma conta da pessoa deixando-a cega para a realidade.

– Psicologicamente falando, o que a pessoa precisa fazer para entender que não pode mais gastar?

Entrar em contato com a real necessidade, carência e desejo. As pessoas não entram em contato com elas mesmas, porque não sobra tempo para isso, pois o marketing, as informações, as propagandas e o apelo da mídia, da informação, do universo consumista e da tecnologia distraem as pessoas de si mesmos. Então a promessa do que aquele produto anunciado pode nos atribuir coincide exatamente com o que procuramos: Sermos aceitos, amados, poderosos, realizados, completos, etc. Mas na realidade para sabermos o que de fato necessitamos devemos olhar dentro de nós. Isto não se encontra fora de nós, e sim dentro.

– Gastar é um vício?

Pode se tornar um vício. O nome deste vício é mania de consumo. É uma compulsão por compras, muito comum nos dias de hoje devido a enorme gama de produtos no mercado. A compulsão é um impulso para aliviar a falta de algo, e no instante em que adquirimos alguma coisa sentimos um pequeno alívio, mas, uma vez que o que nos falta de verdade não é mais um objeto dentre a imensidão de objetos que possuímos, mas sim algo de outra ordem: talvez intelectual, afetiva, produtiva, profissional, sensitiva, desenvolvimento emocional, mental, etc. Porém, como não entramos em contato com a gente mesmo, não sabemos o que é que nos falta. E assim caímos na armadilha de comprar compulsivamente. Isto acontece porque quando tocamos em algo desejado nosso organismo libera momentaneamente uma pequena quantidade de hormônio do prazer (serotonina), e isto traz um breve prazer no qual podemos nos viciar. Assim como fumar, usar drogas, álcool, jogar, etc.

– O pior inimigo é o cartão de crédito? Ele dá uma impressão psicológica de que não se está gastando?

 

O cartão de crédito pode ser um aliado ou um inimigo, uma vez que nós estamos utilizando-o muito além da conta e tudo o que é demais faz mal, o cartão torna-se um inimigo. E como você bem falou, com o cartão de crédito não precisamos desembolsar o dinheiro que não temos no ato da compra, assim, o cartão de crédito da a falsa impressão de que não se está gastando. Utilizar o cartão de crédito é um pequeno delírio que dribla nosso limite e dá a falsa impressão de sermos mais financeiramente potentes do que realmente somos. Hoje em dia ter dinheiro é sinônimo de ser potente.

– Você já chegou a atender casos desse tipo que pode nos exemplificar?

Sim, quase todos os paciente se queixam da dificuldade em controlar os gastos. E já atendi uma compradora compulsiva. Ela curou-se da compulsão conforme pude apresenta-la a si mesma, ela foi conhecendo-se melhor, e consequentemente, entrando em contato com suas verdadeiras carências, desejos e necessidades. Hoje ela gosta de comprar, mas antes de deixar-se hipnotizar por uma vitrine, ela olha para dentro de si mesma e se questiona qual é o seu verdadeiro desejo. O que trará a ela de fato algum sentimento de plenitude e realização.

Meus créditos:

Léa Michaan – Psicanalista.

Pós-graduada em Psicoterapia Psicanalítica pela USP;

Mestre em Psicologia Clinica pela PUC – Atende crianças, adolescentes, adultos e casais.

Autora do livro Maly da Primavera Editorial – Romance de ficção envolvente e inspirador – Impossível deixar de virar a página (segundo depoimentos de leitores).

 

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20 de Julho de 2012 Posted by | Compulsão por compras | 2 comentários