Psicóloga Responde

Dicas úteis para o dia-dia

Envelhecer ou Morrer, Eis a Questão

Fui convidada para realizar uma palestra frisando sobre o grande privilégio que temos quando atingimos a alegria de envelhecer. Fiquei pensando: será que é preciso convencer alguém de que envelhecer é muito bom? Na minha concepção seria o mesmo que fazer uma palestra para convencer as pessoas que ter alegrias é bom, ter saúde é bom, ter felicidade é bom, ter dinheiro á bom. Afinal, envelhecer significa muito mais do que tudo isto, envelhecer, significa ter muita vida. Sem vida de que adianta ter saúde, sei lá uma pele boa, sangue sem colesterol, etc, etc? Ou sem vida, de que me adiante ter dinheiro, ou alegrias, digamos nascimento de netos, se eu como vovó não estiou neste mundo para curtir? Penso que é óbvio para todos que envelhecer significa viver muito e isto é muito bom!

Você provavelmente me dirá: “Mas envelhecer significa que o corpo ficará mais lento, os reflexos também, a saúde mais precária, menos força, menos juventude, menos vitalidade, uma doencinha aqui, outra ali”… Mas quem disse que nós nos resumimos nosso físico? Nosso corpo representa apenas um aspecto do nosso ser. Com o tempo nós podemos nos tornar mais fraquinhos, fisicamente, afinal nosso organismo possui muitas horas de vôo. Mas graças a esta quilometragem de vida, nós adquirimos mais experiência, sabedoria, conhecimento, maturidade. Será que não vale a pena as nossas belas rugas, o organismo mais fraquinho para tudo o que ganhamos? Além do mais, não há outro jeito, ou envelhecemos ou morremos.

O problema são as nossas crenças, nós somos o que acreditamos. O grande cientista Albert Einstein já dizia: “Época triste a nossa que é mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”. Há na sociedade a crença que diz que o que vale na vida é o material. Nós, seres humanos, devido à força do materialismo, das indústrias e do poder do dinheiro, que é o que faz o mundo girar, estamos nos acostumando a dar muito mais valor para o material, que poderia ser representado pelo nosso corpo, do que a todos os outros aspectos, que são o que realmente dão sentido à vida e fazem o ser humano ser feliz, tais como: sabedoria, maturidade, capacidade de sentir e compreender. Nessas crenças que impregnam em nós, por meio das propagandas, que supervalorizam o âmbito material, o envelhecimento humano é compreendido somente no aspecto do físico, mas as teorias do envelhecimento são visões internas, um modo de olhar o mundo, e não como ele é de fato. Portanto, agora entendo melhor a intensão do tema da palestra. A idéia é quebrar pré-conceitos, e trazer uma verdade livre da grande importância que o nosso mundo atual dá para o material, ou no caso, físico.

O intuito desta nossa conversa é para que paremos um pouco de olhar com as crenças alheias e passemos a olhar com os nossos próprios olhos a realidade de se tornar idoso, que nada mais é do que a alegria de conseguirmos agregar muitos anos às nossas vidas. Mas que contraditória esta história de não podermos nos comprazer com os nossos muitos anos de vida, afinal, desde pequenos quando fazemos aniversários, não desejamos muitos anos de vida uns aos outros? E finalmente, quando atingimos estes muitos anos, não conseguimos nos sentir realizados? Isto ocorre porque o homem é um animal crédulo e por isso precisa acreditar em algo e “na ausência de bons fundamentos, ele se satisfará com maus” (Russel), daí percebemos o quanto precisamos aprender e desenvolver nossa capacidade para pensar. Utilizar a nossa mente para refletir, descobrir aquilo que cada um de nós, de fato acredita, independentemente do que a sociedade prega. Precisamos aprender a dialogar internamente: eu comigo mesmo – os dois lados de mim, aquele que está alienado na massa uniformizada da propaganda e dos interesses de meia dúzia de grandes acionistas, ao quais, para aumentar suas fortunas precisam inserir na mente das pessoas a grande importância do universo material em detrimento do emocional, mental e psicológico. E o meu lado mais sadio e, ainda, preservado que é capaz de pensar por si mesmo e resgatar aquilo que de fato importa na vida. Nossas crenças são poderosas, elas criam a biologia, pois, se eu acreditar que não valho nada porque sou idoso, não vou valer mesmo, por outro lado, se eu acreditar que posso me orgulhar por ter vivido muito, realizado muito, e que ainda posso realizar mais, esta será a minha realidade.

O processo de crescer é envelhecer. Desde o momento que nascemos já estamos envelhecendo. Cada passo para frente no nosso desenvolvimento trás novidades. Vamos pensar: no início somos apenas uma gotinha que se encontra com um óvulo, com o tempo esta gotinha se multiplica até se formar no feto, posteriormente desenvolve o organismo que amadurecerá até o momento de nascer, com todas as grandes dificuldades do nascimento: aprender a respirar, digerir, evacuar e de uma maneira geral aprender a viver, o que não é fácil. Posteriormente, o bebe torna-se criança com seus sofrimentos próprios da mente infantil e desprovida de condições para pensar de forma mais amadurecida e, portanto, precisa ficar a mercê da boa vontade dos adultos, em seguida, tornamo-nos adolescentes com todas as delicias e dores, que não são poucas, próprias desta idade, finalmente nos tornamos adultos cheios de responsabilidades, medos, angustias e, claro, felicidades, e finalmente, aqueles que têm sorte, tornam-se idosos, maduros, vividos, e com todo o direito de aproveitar a vida ao máximo. Agora é o melhor momento de viver o aqui e agora, com toda a experiência e maturidade adquirida.

Contudo, alguns se prendem as limitações do corpo muito vivido e só fazem lamentar, enquanto outros dizem que não lhes resta muito tempo de vida e, portanto não vale a pena se envolver em mais nada. Este tipo de crença é a mais falsa e absurda que conheço: Em primeiro lugar, porque ninguém sabe quanto tempo de vida ainda lhe resta, uma vez que basta estar vivo para qualquer pessoa perder a vida. Pode ser jovem, criança, bebe, idoso. Mas, vamos supor que de fato o idoso está mais próximo de chegar ao fim dos seus dias na terra, então, APROVEITE AO MÁXIMO! Isto me lembra duas coisas: a primeira é um comercial de um carro na TV. Começa com um jovem escrevendo no seu diário: este é o último dia de minha vida. Daí mostra as cenas dele aproveitando este dia ao máximo, com o tal carro desfrutando a natureza. No dia seguinte ele escreve de novo no seu diário: Este é o último dia de minha vida, e aproveita de novo. E se você pensa mesmo que são seus últimos dias aproveite: O mundo é maravilhoso, os fenômenos da natureza são incríveis, tanto dentro quanto fora de você. Respirar fundo é uma delícia; fazer um alongamento é muito revigorante, saborear a deliciosa carne do fruto que se encontra entre a casca e o caroço, aquela que enche a nossa língua de água; conversar e rir com as pessoas que você gosta; curtir o netinho, contar a ele sobre a sua vida, se interessar pela vida dele. Fazer uma caminhada no parque e observar a natureza. As flores, as borboletas, ver a chuva cair e o verde ficar mais intenso e vivo. Além do mais, será que você já leu todos os belos livros ou assistiu a todos os bons filmes que existem? Que tal convidar seus familiares para uma saída, uma pizzada, um sorvete, qualquer coisa e olhar para eles tentando ver muitas coisas que ainda são desconhecidas nessas pessoas para você? Que tal promover mais encontros com as pessoas que você ama? Que tal olhar para elas e não focar em suas deficiências, mas nas qualidades? Acredite, com certeza você ainda não viveu nem um décimo do que há para viver, então, não perca tempo, viva. A segunda coisa que me lembra o fato de alguém achar que só lhe resta pouco tempo de vida é a história do filósofo grego – Sócrates que foi condenado a morte e estudava flauta, pouco antes de ter que tomar cicuta, e quando a sua esposa ansiosa lhe perguntou: “Para que você está estudando flauta, se em duas horas irás morrer”? O filosofo no ápice de sua sabedoria lhe responde: “Para que eu aprenda esta área antes de morrer”.

Ficar feliz com a própria velhice não é normal? Ser normal é obedecer à norma, é ser como a maioria, enquanto ser paranormal é recusar ser massificado e fazer parte dos modelos ditos normais. Então se as pessoas “normais” acham à velhice uma fase ruim da vida, vamos rechaçar o medo de envelhecer e recusar a velhice determinada pelo modelo cruel e excludente da sociedade. Quando colocamos rótulos em alguém, este possui identidade estática. De que maneira posso utilizar a minha mente para pensar de maneira útil e produtiva e ser feliz? Buscando novas verdades. Verdades que nos deixam mais felizes, motivados e capazes. Será que aos setenta, oitenta ou noventa anos podemos mudar? Devemos! O ser no tempo não tem equilíbrio está em constante movimento – isto é viver, caso contrário estamos mortos independentemente de nossa idade, uma vez que a flecha do tempo nos permite ser que ainda não fomos.

No processo da vida a ciência vem nos mostrar que envelhecer faz parte da natureza e é bom. Por exemplo: as células possuem um numero finito de divisões, quando chega ao fim, existem duas possibilidades, ou morrem, que é o mais saudável, ou transformam-se (neoplasia) em células imortais, e com a petulância ou arrogância de serem imortais, estas células transformam-se num câncer. São células sem sabedoria, pois, sucumbem todo o organismo, até elas próprias – quem tudo quer, nada tem – Viver e morrer são processos indissociáveis. Durante o nosso tempo de vida na terra nós vivemos e morremos ininterruptamente, portanto, a pratica da despedida, e da elaboração dos lutos é muito saudável, uma vez que o estável não é verdadeiro porque a matéria viva existe em estados dinâmicos.

Conhecer e envelhecer são sinônimos, por isso, quanto mais velhos, maior a nossa capacidade de valorizar o que é relevante e ignorar o irrelevante. Esgotar-se nos problemas tange aos mais novos, e esgotar-se por qualquer motivo é falta de sabedoria. Envelhecer é motivo de alegria, motivo de tristeza é permanecer infantil – O que é ser jovem, o que é ser velho e o que é ser criança? Será tudo uma questão cronológica? Em todo o caso, só há um tempo para se viver – no presente. Muitos de nós não percebemos a passagem do tempo, porque somos educados a estar na frente, tentando controlar o inesperado.

Muitos de nós ao olharmos para trás sentimos muita culpa e remorso por atos cometidos em fases anteriores da vida, porém, culpa é uma palavra que não existe, pois, mesmo que o resultado foi insatisfatório, aquilo que fizemos naquela época da nossa vida era o que podíamos ter feito, hoje já somos outras pessoas, não podemos nos culpar pela outra pessoa que éramos. Culpa é uma grande dose de poder que alguém atribui a si mesmo, e de alguém que não reconhece os seus limites, afinal, não somos tão poderosos assim ao ponto de adivinhar o que era mais útil de antemão. E, se alguém não tem bons resultados, é porque ainda não envelheceu o suficiente. Tudo na vida tem bom e mal, nada é só bom ou só mal.

No envelhecer existem muitas coisas boas: mente, emoções, experiências, aprendizado, maturidade, tranqüilidade, sabedoria. O lado mal? Talvez o nosso organismo mais frágil e cansado e nossas belas rugas que podem ser muito belas para quem souber apreciá-las. Elas nos tornam mais interessantes. Na velhice perde-se a aparência da juventude e se ganha a possibilidade de parar de se preocupar com o olhar do outro sobre nós – a natureza é sábia.

Enfim, tudo é consciência – há a história da borboleta que sai do casulo com asas coloridas e capacidade para a liberdade, olha para trás e para si dizendo: “eu me transformei nisso?” – Quando somos jovens estamos presos na nossa ingenuidade, inexperiência e falta de conhecimento, precisamos da aprovação do olhar do outro para agirmos, não temos liberdade para sermos nós mesmos, mas quando adquirimos, olhamos para trás e não gostamos do que vemos em nós. Podemos aceitar as transformações e estar conscientes que ela nos levará a integridade, ou resistir, tentar retornar ao casulo e sofrer.

Na juventude não podemos ser quem de fato somos, porque não nos conhecemos ainda, se continuarmos distante de nós ocupados com o que o outro pode pensar ou achar, ficaremos na solidão e não suportaremos a nossa própria companhia, afinal, como me aceitar se não me reconheço como um ser legitimo?

A origem da angustia do envelhecer é a mesma do nascer e crescer: pensamos que só temos segurança naquilo que conhecemos, se o corpo muda porque vive e portanto envelhece, nos sentimos inseguros diante deste corpo. Mas, só a angustia pode nos levar a frente porque ela nos aperta, e para fugir do espaço apertado, é preciso movimentar-se. Viver é movimentar-se, é transformar-se, é envelhecer.

Recusar envelhecer é se tornar uma estátua, análogo ao uso de Botox, no rosto, na mente e na alma. Pessoas que se recusam a envelhecer compreendem o ser humano pelas partes isoladas que o compõe. Vemos a ruga e não o que ela representa, e assim, damos mais poder ao espelho do que ao ser. Quando nos alienamos de nós em prol do olhar alheio, além de nos afastarmos de nos mesmos, o outro vê que nós somos alienados.

“A causa fundamental dos problemas de hoje é que os estúpidos têm certeza absoluta, enquanto os inteligentes estão repletos de dúvidas” (Bertrand Russel). A verdade é ampla, e o ser humano é indefinível – alguém pode ter vinte anos e ser muito velho, o outro pode ter oitenta e ser jovem. O que é ser jovem ou velho? Será que só o corpo determina?

Algumas pessoas mais velhas dizem que nada acontece e que a sua vida é monótona, mas se a vida de alguém é entediante, a culpa não é da vida, e sim da pessoa que a enxerga assim, pois não é capaz de extrair suas riquezas.

O grande segredo da vida é abrir-se para o desconhecido, e ninguém já conhece tudo. O único caminho para viver bem é simplesmente VIVER, e viver é envelhece

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11 de Abril de 2010 Posted by | idosos | 3 comentários