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Um video que explica a mania de consumo

Mania de consumo –

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14 de Março de 2012 Posted by | Mania de Consumo | 2 comentários

Mania de Consumo

Antes de tudo, para entendermos as manias atuais, é necessário compreendermos o mundo em que vivemos e como os interesses mundiais influenciam a nossa maneira de ser. Atualmente, o dinheiro é a roda que faz o mundo girar, vivemos a era da lucratividade, e, portanto, somos bombardeados pelo apelo consumista. Neste apelo, as propagandas motivam rivalidades e competições, uma vez que ter, segundo a publicidade, nos confere poder sobre os demais, e assim, como se fosse um delírio coletivo, as pessoas sentem-se superiores conforme os objetos que consomem. Como se um objeto tivesse o poder de angariar mais valor a um ser humano.

Desta maneira nasceu uma nova ideologia – A Ideologia do consumo. Vamos refletir: O que é uma ideologia? – Um conjunto de crenças. E as crenças relacionadas ao consumo prometem: felicidade, demonstração de sucesso, potência, plenitude, realização, sensualidade ao extremo, etc. Mas continuando nesta linha de pensamento, o que, de fato, eu ganho se o outro pensa que sou feliz? Simplesmente me afundo cada vez mais no universo vazio das aparências. Quanta energia, força, tempo, dinheiro, criatividade e emoções gastamos só para mostrar em vez de investir no que de fato pode nos realizar? E assim nos afastamos, cada vez mais e mais, da nossa essência, já que estamos totalmente voltados para a superficialidade, à nossa casca, neste universo das aparências. Em vez de olhar para dentro e procurar descobrir o que falta dentro de nós, olhamos para fora, tentando ver qual é o objeto da vitrine que irá nos seduzir e preencher o nosso vazio. Esta é uma maneira inútil de realização, e também, uma forma de fugir das verdadeiras angústias.

A ideologia do consumo alimenta o narcisismo infantil, que nada mais é do que aquele desejo que carregamos desde que somos crianças em ser o centro das atenções. A nossa parte infantil vive em cada um de nós, e há interesse, por trás do sistema industrial, para não amadurecermos. E assim, a propaganda promete o que mais desejamos: felicidade, realização de todas as nossas fantasias: onipotência, beleza, força, encanto, poder, charme, e para tanto, basta comprar tal e qual produto. Uma parte de nós, aquela mais amadurecida e madura, sabe que o que a propaganda promete é mentira, outra parte quer acreditar. Esta parte de nós é aquela que se rebela contra os impedimentos e as limitações. Por isto a publicidade funciona, porque manipula nossos desejos infantis e inconscientes.

A Psicanálise é o oposto da publicidade. A Psicanálise lida com a falta, a incompletude, os limites, a abdicação da onipotência, a renuncia do narcisismo e a realidade para crescermos e vivermos plenamente. Já a publicidade alimenta a fantasia onipotente, o narcisismo que nada mais é do que a vaidade desmedida, através da aquisição dos bens de consumo.

O que acontece quando as pessoas compram o objeto do seu desejo? Ficam mais felizes? Não. Por que? 1- O desejo humano sempre é insatisfeito, pois, se baseia na restauração impossível da completude. 2- quando se adquire o objeto este se desvaloriza e a busca recomeça. 3- Passada a euforia, o consumidor volta ao vazio e a decepção, uma vez que o objeto adquirido não o deixa imune à dor e a angustia (elementos humanos). E assim após tanto sonhos e decepções relacionados ao universo consumidor, nós caímos em depressão, que se tornou o mal do século.

Só que a depressão de hoje em dia é diferente da depressão da perda e da dificuldade em elaborar lutos. É a depressão do penoso reencontro do consumidor com a realidade (interna e externa), uma vez que, apesar da nova aquisição, a realidade fica inalterada, ao contrário das vãs promessas da publicidade.

Os objetos tornam-se obsoletos com uma rapidez que nunca se viu antes na história. Saem da linha de montagem com os dias contados. Tudo para alimentar as necessidades da indústria. As campanhas precisam promover a idéia de que o modelo anterior é antiquado, e assim, uma mínima mudança na cor, no estilo, ou acréscimo de algum item sem utilidade, já basta para o objeto tornar-se antiquado. O sonho das indústrias é fabricar produtos auto-destrutivos no momento de promover o modelo mais recente. E assim, nós influenciados pelo sistema, imitamos as pregações das propagandas e olhamos para o aparelho do outro que é um pouco mais “antigo” que o nosso e fazemos desdém da pessoa, por conta do seu objeto que não acompanha as últimas tendências da moda.

Será que a pessoa se resume ao seu aparelho? Será que não seria o caso oposto? Ou seja, deste que não foi envolvido pelas propagandas, alienando-se de si e escravizado pelo poder da publicidade, que deveria fazer desdém daquele que se escraviza aos bens de consumo e que se sente bem ou mal consigo mesmo pelo que adquire e pelo que tem e não pelo que é?

Vender é o único objetivo da existência da corporação. Será que ninguém percebe? Vivem para obter lucros. E assim, vivemos a era do culto ao consumo. Todos nós se prostrando ao poder do dinheiro.

Esta educação é incutida em nós numa fase muito precoce da nossa existência. Ao nascer, mesmo sendo incapaz de pronunciar uma palavra, o bebe é um consumidor voraz que movimenta uma indústria bilionária em todas as partes do mundo. Os senhores da venda investem pesado no lado emocional dos pais, e assim começa o processo de escravidão do consumo, desde recém nascido, pois, segundo o dito popular: “É de pequeno que se torce o pepino”. Os bebes ainda não sabem falar, gostar, escolher e já estão lá movendo a indústria que vale milhões.

Muitas de nossas necessidades foram criadas em cima de necessidade nenhuma. O sistema industrial de consumo, de olho na eterna insatisfação humana e da infinita necessidade de preenchimento para o grande vazio, viu a oportunidade singular de ajudar na busca, que para o bem de todos e satisfação maior, nunca terá fim.

Saindo do consumo dos bebes e entrando no consumo das crianças. Vemos a criação de filmes, entretenimentos, seriados e desenhos que criou um novo nicho de consumo: mercado alimentício, roupas, brinquedos, publicações especiais, colônia de férias, pacotes de viagens, cartões de créditos, poupança programada, aparelhos eletrônicos, e uma parafernália que as crianças nem sonhavam em consumir. Assim, a industria de consumo criou um estilo próprio para cada faixa etária determinando como devem se vestir, o que devem consumir, e a intensão é uma só: dar vazão ao que sai da linha de produção. Em vez de brincar, não de forma virtual, mas real, de pega-pega, esconde-esconde, roda, boneca, pular corda, empinar papagaio, bola de gude, futebol (sem chuteiras caríssimas). Os valores transformaram-se, e vemos a banalização de tudo o que é material, uma vez que antigamente as roupas passavam dos mais velhos para os menores, que as recebiam felizes. A ambigüidade que se insere em todas as questões da vida: por um lado os objetos são supervalorizados, por outro banalizados para que compremos cada vez mais.

Hoje é preciso trocar, mesmo que o objeto esteja em perfeitas condições de uso, e isto não é uma questão de necessidade física de ordem prática, mas psicológica. A máquina de vendas vai se incumbir de que o produto será psicologicamente obsoleto. Anteriormente, a cor da moda limitava-se ao vestuário feminino, agora os objetos mudam de cor conforme a estação, de acordo com meia dúzia dos principais acionistas por trás das grandes indústrias que se reúnem para decidir o que é e o que não é estético no modo de vida das pessoas. E nós, os trouxas, nos matamos de trabalhar para não ficar para trás. Quem está pra trás? Fácil convencer os infelizes consumidores que se sentirão mais infelizes se continuarem com o modelo antigo. O infeliz consumidor adquire o produto esperando obter outra coisa que é o conceito por trás da coisa. O consumidor é convencido que esta comprando muito mais do que um objeto, mas através deste produto ele adquirirá: felicidade, poder sobre os outros, sucesso, e um mundo de vantagens.

Hoje em dia o desejo de comprar já virou doença para muitas pessoas: É o consumismo compulsivo (ovniomania). O mercado parece dar mil vantagens, mas a maior vantagem é para a indústria. O pobre consumidor se enche de dívidas e objetos repetidos sem necessidade e escondem dos familiares – este é um sinal de doença, assim como também o alto grau de irritação diante da impossibilidade de comprar e a impulsividade do ato.

Vivemos na crença de que nos valorizamos junto ao nosso objeto novo. Imaginamos que o objeto nos traga amor dos outros. Isto acontece porque as pessoas buscam reconhecimento, aceitação e amor. Assim a mídia prega que devemos ter o que nos faça ser mais desejado, admirado, importante e valorizado. E isto é uma troca perversa, uma vez que a necessidade de amor é buscada através do quanto consumo tanto serei mais amado. O desejo não é pelo objeto, mas pela satisfação de carência, assim o sentimento de plenitude não dura muito, e o sujeito é rapidamente tomado pelo vazio e pela falta novamente. E assim buscamos outro e outro objeto, sucessivamente, numa busca infinda.

O ter tem o compromisso do ser nos olhos dos outros. Mas, vamos pensar nas diferenças entre a condição existencial de ter ou ser: Ter – coloca o objeto no centro deixando as pessoas, a si e os outros de fora, é aquele que persegue a ambição de diferenciar-se de todos, procura a superioridade pelo que possui e não pelo que é.
Em contrapartida: Ser – coloca o ser humano no centro, e os objetos de fora. Nesta condição, o indivíduo possui maior respeito por si e pelas pessoas.

Como sair da escravização do consumo? Olhando para dentro ao invés de olhar para fora, buscar dar vazão as questões: Quem sou eu? O que me faz sentir? Qual é a minha real necessidade?

O que motiva uma compra são emoções, tais como a angustia, o vazio, a irritação, a insegurança, e a necessidade de aceitação. Vamos pensar? O novo par de tênis fará grande diferença na nossa vida? Às vezes você tem vontade de se esbofetear por ter gasto tanto?
É comum a pessoa que se sente devedora de mais empenho profissional, atenção para os filhos, marido, e outros requisitos da vida, realizar este sentimento tornando-se devedora de verdade, ou seja, as dividas afetivas transformam-se em dividas financeiras.

Precisamos aprender a pensar: Qual é o verdadeiro impulso que está por trás de uma nova compra? A necessidade de conversar com alguém da família, entrar em contato consigo mesmo, dar mais atenção aos filhos, ao marido, ao intelecto, as realizações pessoais ou profissionais?
Antes de abrir a carteira seria útil perguntar a nós mesmos: O que eu quero de verdade? Qual é a minha real necessidade? Esta mercadoria ou…?

Léa Michaan

15 de Abril de 2010 Posted by | Mania de Consumo | 1 Comentário